08 maio 2013

O Infiltrado (série canal History)

Ontem calhou de assistir até tarde o canal History, que eu já comentei aqui em algum lugar ser um dos meus canais prediletos.. infelizmente nessa vida nem tudo são flores, e a estréia da série "O infiltrado" acabou se mostrando nessa noite de terça feira, um tremendo chute no saco e paulada na cabeça.
Não adianta.. eu não sou adepta a visão derrotista que "Se é feito no Brasil, não presta". Eu admito coisas maravilhosas do povo brasileiro, mas parece que se tratando de jornalismo, o Brasil precisa ainda comer muito arroz e feijão. 
A proposta de "O infiltrado" é interessante. Um jornalista fazer parte de determinados universos e relatar suas experiências. 
O programa de estréia chamou-se "Evangelismo". Nos detalhes, é esclarecido que se tratava da "Igreja Evangélica". Poderia ser bem interessante o que viria pela frente, mas o que assisti foi um show tão tacanha onde "o jornalista" conduziu o tema de uma tão absurdamente estreita de ideias que não existe outra alternativa: Ou o jornalista e/ou responsáveis pelo roteiro são incrivelmente ignorantes ou o programa é pau mandado para desmoralizar a Igreja Evangélica.
Mas como dizem, vamos por partes.
O desconhecimento do assunto já vem no tema. "Evangelismo" pressupõe o ato de Evangelizar. Ora, isso está na esfera do Cristianismo, e não é exclusividade dos Evangélicos. Toda igreja cristã é comprometida com o Evangelismo, que é o compromisso de propagar o Evangelho, ou seja, os princípios cristãos. Mas como isso é feito, nas diferentes igrejas cristãs, não foi o tema. O tema do programa, na verdade, não era "Evangelismo", mas sim "Igreja Evangélica". 
Talvez essa confusão de palavras e conceitos foi provocada pela ignorância dos jornalistas ou para vincular de alguma forma o tema "Evangelismo" (maneira ampla) com a 1 hora de escrotice que foi transmitido.
O roteiro desse episódio de "O infiltrado" foi bizarro: 
O jornalista Fred M. Paiva, declaradamente ateu (posição pessoal dele) decide abrir uma igreja, pois conclui "brilhantemente" que isso o faria entender a "igreja evangélica". Essa premissa bizarra e desvirtuada já foi um mal presságio do que viria adiante.
Ficou claro que a "Igreja Evangélica", desde o início do capítulo da série, é considerada um negócio onde "um bando de pessoas ferradas entregam o dízimo de sua renda para o pastor". 
Considerando que os produtores de "O infiltrado" tenham mesmo essa ideia, é sabido que até em grandes empresas, para entender do negócio, gestores e diretoria são incentivados a compreender as diversas funções da empresa, especialmente as funções mais básicas e servis. 
Se a "Igreja Evangélica" é um negócio, e se essa visão e a intenção dos produtores de "O Infiltrado" fossem sinceras e legítimas, porque não colocar Fred M. Paiva como um "obreiro" de uma denominação Evangélica qualquer? Coloque-o como porteiro, a posição que estaria mais próxima das pessoas que compõe a igreja. Coloque-o como participante ativo de todos os cargos da igreja, ai sim, ele entenderia um pouquinho como a "organização igreja" se organiza e de fato, impacta a sociedade.
Até eu, que não sou jornalista, consigo pensar em um roteiro mais decente: Por meio dos diversos cargos de uma igreja, o jornalista tomaria contato com as histórias pessoais e o verdadeiro impacto e transformação de vidas.  
Mas isso não é interesse dos produtores de "O infiltrado". Porque seria do interesse mostrar pessoas que abdicam de seu tempo e recursos para atender desconhecidos que buscam ajuda? 
O que seria a posição mais honesta e profissional de "O infiltrado"? 
A igreja evangélica é multi denominacional. É muito diversificada. Como alguém quer entender um universo se nem sequer vê (e principalmente, finge não ver) as diferenças organizacionais? Nem sequer foi apresentado um mínimo panorama histórico e doutrinário, erro gravíssimo, absurdo e estúpido. 
Observado isso, escolha uma denominação. Uma igreja. Aí sim, infiltre-se. 
Atue na área infantil. Como a igreja cuida de suas crianças? Atue na área jovem da igreja. O que é ser jovem evangélico?Atue na área adulta da igreja. Como os pastores cuidam e atendem os adultos da igreja. Atue nas reuniões promovidas para cada público da igreja. Atue nas ações sociais promovidas na igreja. Acompanhe cada membro da igreja que se dedica a visitar pessoas em casa, evangelizar nas prisões, fazer trabalho em clínicas de recuperação de álcool e drogas. A coisa mais abundante em igrejas evangélicas são serviços sociais. E principalmente, dê um pulinho no campo das Missões. Como os dízimos e ofertas, que foram colocados como enriquecedores de pastores, são usados na verdade para manutenção da estrutura da igreja e missões. Como centenas de pastores não são somente pastores, mas possuem profissões seculares. Passe uma hora na companhia de um missionário. Milhares de Igrejas Evangélicas sustentam missionários e suas famílias em diversas partes do mundo, inclusive onde a perseguição ao Cristianismo é ferrenha, punida com morte. Visite um missionário que atua em países onde é proibido ser Cristão, como as igrejas evangélicas brasileiras atuam e apoiam trabalhos para sustentar e dar apoio a cristãos perseguidos. E tantos e tantos trabalhos onde há pessoas competentes, sérias, comprometidas e íntegras.
Mas nada disso interessa ao "Infiltrado", não?
O que é mais interessante? Afrontar a sociedade e colocar todos os evangélicos dentro de uma caixa com a etiqueta "otários" do lado. Porque Fred M. Paiva declarou tão incessantemente que era ateu. E sua missão passou a ser fundar uma igreja evangélica? A mensagem é clara: "ô seus crentes babacas! até ateu dirige igreja! Você são uns enganados!"
E existe isso? Claro que sim. Tem todo tipo de gente em todo lugar. Mas toda igreja evangélica é assim? O universo da igreja evangélica é assim? Me poupem. 
Li alguns comentários que as pessoas disseram que o cara (Fred M. Paiva) é ateu, o que ele entende para fazer uma reportagem sobre a Igreja Evangélica. Eu discordo. É indiferente as convicções religiosas de uma pessoa quando esta é profissional. Jornalismo deveria ser imparcial, mostrar todos os lados da questão, não ser influenciado por questões pessoais do jornalista A ou B. Creio que um ateu poderia conduzir brilhantemente um seriado sobre religiões, por exemplo. Basicamente é história, é relatar os fatos, jogar as cartas na mesa. O que você pensa, pessoalmente, não convém. A reportagem é sobre o tema, não sobre você. Tá faltando isso para uma parcela da mídia brasileira. Bando de vendidos e pau mandados, fabricam notícia e seriados para acalentar interesses de outros, sem o mínimo de comprometimento para mostrar como as coisas realmente são. 
Qual foi a conclusão de "O infiltrado", capítulo de estréia, "Evangelismo"? Foi essa: A igreja evangélica é formada por pessoas desgraçadas que entregam todo o mês parte de seu salário para o pastor em troca de um pouco de paz. 
Fred Melo Paiva deveria sentir vergonha de assinar em baixo de uma análise tão parcial quanto essa. 


9 comentários:

  1. Acredito que o blog tem por tema o evangelismo, me corrija se estiver errado.
    Não acho que tem sido uma paulada, o que passou nesse episodio é o que acontece realmente, somente não ver quem não quer.
    E antes que você afirme que o jornalismo seja imparcial, sinto te informar que isso nunca existiu, o jornalista tem sim uma posicao clara sobre o assunto e claro que ele ira defender a sua opiniao, ou opiniao da emissora.
    Obrigada!

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    1. Olá Abigail, tudo bem? Obrigada pelo comentário!

      Então... "Acredito que o blog tem por tema o evangelismo".. eu não entendi essa sua colocação, vc está falando do meu blog? Se sim, ele não tem como tema evangelismo. Construo esse espaço para colocar coisas que gosto, que acho interessante, jogar conversa fora e coisas assim.. ou seja, mais um blog pessoal. hehe Há bastante referências sobre cristianismo pq faz parte da minha vida, assim como outros assuntos que frequentemente comento aqui.

      Eu não estou negando que o que foi apresentado em "O infiltrado" não aconteça. Acontece (e muito), tanto é que filmaram e está ai para quem quiser ver. O que eu critiquei foi focar exclusivamente nisso. Foi a mesma coisa que fazer um documentário sobre cinema americano e focar só no gênero pornográfico, quem nunca teve contato com cinema vai pensar que só se produz filmes pornográficos no cinema americano. Ou "mergulhar no universo das academias" e única e exclusivamente mostrar gente usando anabolizantes, sem nunca mostrar alguém fazendo oposição a prática. Do jeito que "O infiltrado" apresentou as "igrejas evangélicas" parece que todos aprovam tais posturas, sendo que há inúmeros pastores e ministérios sérios que batem de frente com tais abusos.

      O que eu critiquei foi justamente a lateralidade do programa, focarem em um aspecto sem considerar qualquer outra coisa além disso.

      Eu não afirmei que o jornalismo é imparcial. Eu escrevi que o jornalismo deveria ser imparcial. Eu acho também que 100% imparcial nunca é ou será. Mas também eu penso que deve haver o esforço para tratar de um assunto pelo menos por alguns pontos de vista. Ainda mais quando isso vem de um programa que se vende como "algo informativo".

      O infiltrado é um programa que se vende como "fulano entra no universo de tal assunto". E quando nos deparamos com o tal "universo" sendo tratado de forma tão limitada, é mais do que obrigação criticar essa postura.

      Mas é isso ae, novamente muito obrigada pelo comentário ;) Desculpe a demora em publica-lo, somente hoje li e pude responder. Abraços! :D

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  2. clap clap clap clap clap. Vc poderia ser jornalista. excelente texto, excelente crítica, excelentes observações

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    1. Obrigada lindona... o duro foi aguentar a vergonha alheia assistindo o programa. :(

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  3. É por essas e outras que aboliram a exigência do diploma para ser jornalista,ora pra falar bobagens não precisa de diploma!Ah e sobre esse Fred Melo Paiva ele é colunista esportivo do jornal "Estado de Minas" e ele é dado a incitar a violência no futebol;vide o caso em que ele ofendeu os torcedores do Cruzeiro ;pois ele é torcedor do Atlético Mineiro, ou seja,é um péssimo jornalista! Abraço!

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  4. Ah,eu sou católico e achei absurda a generalização!Tudo de Bom!

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    1. Olá Ronaldo, muito obrigada pelos comentários.
      Tá certíssimo.. os próprios jornalistas deveriam tomar uma posição quando um colega pisa no tomate dessa forma... assinando em baixo de um trabalho com tantos erros metodológicos... erros tão toscos que até quem não é da área da comunicação identifica os furos. Infelizmente está faltando bom senso....de quem produz e de quem recebe as "informações".

      Essa questão de futebol é complicada... nunca li uma coluna do Fred Melo Paiva, mas essa postura de incitar o confronto é bastante comum na mídia. Adoram exaltar "a rivalidade", inclusive "rivalidade das torcidas" como se não fosse nada demais... e depois não sabem porque um monte de gente quer massacrar os outros por ai. Promover a paz antes de tragédias acontecerem ninguém quer. Só falam em paz depois que alguma m* acontece... e não é no sentido de "paz" e sim "justiça".. que por sua vez não é "justiça" e sim, "vingança".

      Enfim.. Bacana seu posicionamento. Da fato, generalização é a mais infame maneira de manipulação. Tudo de bom pra sua vida, Deus abençoe ;)

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  5. Caracterizado perfeitamente. A(s) igreja(s) são um negócio, quanto ante você entender, menos sofrerá.

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    1. huahauhauhua bem, eu já expus minha opinião do pq não concordar com a abordagem do programa, pois eu conheço e vivo uma realidade que não é essa então... resta-me agradecer seu comentário. Não havendo baixaria todos são bem vindos aqui.. hehehe

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